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Proteína de um fungo do solo (Mortierellaceae) congela água a -2 °C e pode ajudar na chuva, na criopreservação e no gelado

Cientista em laboratório a observar cultura em placa de Petri, com amostra de terra e gelado na mesa.

Normalmente, a passagem de água a gelo parece um fenómeno regido por regras simples e previsíveis. No entanto, no subsolo, um fungo interfere neste processo de forma inesperada. Uma equipa internacional de cientistas identificou uma proteína capaz de transformar água em gelo já ligeiramente abaixo do ponto de congelação - e isso pode, no futuro, ajudar a induzir precipitação, a congelar células com menos danos e a tornar o gelado mais cremoso.

Um fungo do solo com um truque surpreendente: a água congela a menos 2 graus

A investigação centrou-se em fungos da família Mortierellaceae. Estes microrganismos estão espalhados por solos de todo o mundo e, na maioria das vezes, passam despercebidos. A equipa liderada por Boris Vinatzer e Xiaofeng Wang, da universidade norte-americana Virginia Tech, conseguiu isolar destas espécies uma estrutura proteica específica.

"A proteína do fungo funciona como um botão de arranque do gelo: faz a água congelar já por volta dos -2 °C, apesar de, em princípio, ainda poder manter-se líquida."

Em física, este comportamento liga-se ao fenómeno da subarrefecimento (superarrefecimento): água pura e muito limpa pode permanecer líquida bem abaixo dos 0 °C enquanto não existir uma superfície adequada onde os cristais de gelo se possam formar. A transição só avança quando surge um “núcleo de cristalização” que desencadeia a passagem do estado líquido para o sólido.

É precisamente aqui que entra a proteína do fungo. Ela fornece às moléculas de água uma superfície perfeitamente organizada, permitindo-lhes alinhar-se e ligar-se numa rede cristalina. O resultado é que a água evita a fase de subarrefecimento acentuado e solidifica muito mais cedo.

Conhecido em bactérias - mas o fungo tem um trunfo

Proteínas que iniciam a formação de gelo não são uma novidade para a comunidade científica. Algumas bactérias, como a Pseudomonas syringae, exibem este tipo de proteínas na superfície celular. Há muito que são estudadas na agricultura e na silvicultura, porque podem agravar danos por geada em plantas.

A versão do fungo, contudo, apresenta uma vantagem determinante:

  • Solúvel em água: a proteína dissolve-se em água, em vez de ficar presa às células.
  • Independente de células vivas: continua a atuar mesmo quando as células do fungo já morreram ou foram removidas.
  • Mais fácil de manusear: em teoria, pode ser isolada, armazenada e aplicada em doses controladas.

Em laboratório, esta diferença é enorme. As proteínas bacterianas, na maioria dos casos, têm de ser usadas com células vivas - ou pelo menos com células intactas - o que complica aplicações em instalações técnicas ou na medicina. Uma proteína livre e solúvel alarga bastante o leque de possibilidades, desde processos industriais até utilizações em ambiente exterior.

Desvio genético: o fungo “roubou” o talento

Para perceberem de onde vinha esta proteína fora do comum, os investigadores analisaram o genoma do fungo através de sequenciação de ADN e procuraram o gene responsável. A surpresa foi clara: a sequência genética não se parece com genes típicos de fungos, mas revela sinais evidentes de origem bacteriana.

O mecanismo por trás disto é aquilo a que os especialistas chamam transferência horizontal de genes. Em vez de passarem características apenas aos descendentes, alguns organismos conseguem trocar material genético “na horizontal”, atravessando espécies e até diferentes reinos biológicos. Neste caso, é provável que uma bactéria tenha transferido ao fungo, há centenas de milhares a milhões de anos, o gene associado à proteína formadora de gelo.

"O fungo não ‘inventou’ o gene: apropriou-se dele do conjunto de peças genéticas das bactérias - e depois integrou-o na sua própria biologia."

O facto de o fungo ter mantido e refinado este gene durante tanto tempo sugere que ele traz um benefício real. Quem consegue fazer a água congelar mais cedo também altera o meio à sua volta: por exemplo, a humidade no solo, fluxos de nutrientes ou a sobrevivência durante noites frias. Qual é, exatamente, a vantagem ecológica ainda terá de ser clarificada por estudos futuros.

De fazer chover à clínica: onde a proteína poderá ser usada

Nova opção para a “semeadura” de nuvens

Um dos campos mais intrigantes é o da modificação do tempo atmosférico. Na chamada semeadura de nuvens, hoje em dia introduzem-se substâncias químicas como iodeto de prata nas nuvens para estimular a precipitação. Estas partículas funcionam como núcleos, nos quais a água se acumula sob a forma de gelo ou de gotículas que acabam por cair.

Uma proteína natural, biodegradável e proveniente de um fungo inofensivo poderia ser uma alternativa mais amiga do ambiente. Dentro da nuvem, atuaria de modo semelhante ao que acontece no tubo de ensaio: gotículas de água que, pouco abaixo de 0 °C, ainda se mantêm líquidas congelariam mais depressa e desceriam como cristais de gelo - na forma de chuva ou neve.

Por agora, isto continua a ser um cenário de futuro. Para que aviões ou drones consigam dispersar a proteína em quantidades suficientes, são necessários processos de produção estáveis e avaliações de segurança bem definidas. Ainda assim, muitos investigadores veem aqui um potencial elevado, sobretudo em zonas com seca crónica.

Congelamento mais suave de células e tecidos

Outra área de aplicação situa-se na medicina e na biotecnologia, em particular na criopreservação. Células, amostras de tecido ou embriões são armazenados a temperaturas extremamente baixas. O problema é que cristais de gelo grandes e pontiagudos podem romper membranas celulares e danificar estruturas internas.

Ao iniciar o congelamento mais cedo, a proteína do fungo tende a gerar muitos cristais pequenos e mais arredondados. Isso costuma reduzir danos e ajuda a preservar melhor a integridade de células vivas.

Tipo de congelação Tamanho dos cristais Impacto nas células
Início tardio do congelamento Poucos cristais grandes Elevado risco para membranas e estruturas
Início precoce do congelamento com proteína Muitos cristais pequenos Mais suave para as células, podendo permitir melhores taxas de sobrevivência

Para bancos de sangue, clínicas de fertilidade ou bancos de tecidos, uma proteína deste tipo poderia trazer benefícios muito relevantes. Menos danos celulares podem traduzir-se em melhores resultados em transplantes, em medicina reprodutiva e na preservação de amostras raras.

Indústria alimentar: gelados, legumes, refeições prontas

A formação de gelo também é decisiva no universo dos ultracongelados. Quem já provou gelado com textura arenosa ou legumes congelados moles conhece o efeito: cristais de gelo grandes estragam a estrutura e pioram a sensação na boca.

Com uma utilização controlada de uma proteína formadora de gelo, seria possível orientar o congelamento para favorecer cristais mais finos. Em gelados, peixe, carne e fruta ou legumes sensíveis, a textura poderia melhorar de forma clara. Aqui também, uma proteína vinda de um fungo do solo muito comum seria um caminho natural atrativo - desde que seja considerada segura e possa ser produzida a baixo custo.

O grande entrave: produção industrial em massa

A ideia é convincente, mas a prática ainda impõe limites. A equipa de investigação sublinha que o principal problema, por enquanto, é a ausência de produção à escala industrial. Quantidades de laboratório obtêm-se com relativa facilidade, seja cultivando o fungo, seja recorrendo a microrganismos geneticamente modificados para fabricar a proteína. Para frotas de semeadura de nuvens, grandes biobancos ou empresas alimentares, porém, seria necessária produção ao nível de toneladas.

Assim, tornam-se necessários:

  • organismos de produção adequados (por exemplo, leveduras ou bactérias),
  • processos de fermentação estáveis e económicos,
  • métodos de purificação que entreguem proteína com elevada qualidade,
  • e testes fiáveis de segurança e de compatibilidade ambiental.

Só depois de ultrapassados estes obstáculos será possível transformar a descoberta em produto comercial. Ainda assim, há precedentes claros: proteínas e enzimas de microrganismos - de enzimas em detergentes à insulina - já chegaram muitas vezes ao uso quotidiano.

O que significam termos como subarrefecimento e transferência de genes

Quem se interroga sobre como a água pode permanecer líquida abaixo do ponto de congelação acaba por chegar ao conceito de subarrefecimento. O elemento decisivo é a ausência de núcleos onde os cristais de gelo possam começar a crescer. Em amostras muito puras, como as preparadas em recipientes laboratoriais cuidadosamente limpos, a água pode manter-se líquida a -5, -10 ou temperaturas ainda mais baixas, até que um grão de pó, uma vibração ou, neste caso, uma proteína desencadeie a cristalização.

A transferência horizontal de genes também requer contexto. Pode ser comparada à partilha de ficheiros entre computadores: um organismo “copia” um segmento de ADN de outra espécie e incorpora-o no seu próprio genoma. Entre bactérias, isto é relativamente comum - por exemplo, na disseminação de resistências a antibióticos. O facto de esta transferência ocorrer também entre bactérias e fungos mostra até que ponto a evolução pode ser flexível.

A descoberta desta proteína fúngica que induz formação de gelo é, por isso, mais do que uma curiosidade de laboratório. Mostra como física, biologia e tecnologia se cruzam - e como uma estrutura discreta do solo pode vir a ter impacto na chuva, na medicina e na qualidade dos alimentos.


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